24/06/2008

"O Conceito de QI no Taijiquan" e "Taijiquan: Um Sistema Completo"

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O Conceito de QI no Taijiquan

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Taijiquan: Um Sistema Completo...



É muito difícil, para mim, abordar o que se passa com a prática do Taiji/ Tai Chi sem parecer que estou a falar de ficção...ou experiências transcendentais_ para não dizer esotéricas. Claro que isso só iria acontecer com quem se encontra do lado de fora da prática desta actividade, mas será, em princípio, o perfil de um qualquer leitor-tipo que por aqui se passeie, dado que esta arte/actividade ainda se encontra, infelizmente, pouco disseminada.

E saliento, novamente, "exterior à prática", pois mesmo aquele que se dedicou a ler, "estudar" ou simplesmente a interessar-se sobre esta matéria, seja por que motivo for: a curiosidade, a vontade de saber, a associação a outras áreas de conhecimento que poderão ser periféricas ou relacionadas_ não poderá saber, realmente, o que acontece durante e, sobretudo, após um certo tempo de prática persistente e extensiva no tempo, sem o experimentar e vivenciar pessoalmente. Uma adepta desta actividade, a actriz Gillian Anderson, explicava assim numa entrevista a sua escolha: "Eu pratico Tai Chi porque é a maneira de sentir que voo" ( e não me parece que estivesse a fazer publicidade a uma certa bebida...).
Assim, vou novamente recorrer às explicações de um praticante e conhecedor, nesta matéria, cujos escritos já há algum tempo encontrei por estas redes, e que conseguiu, na minha modesta opinião, transmitir um pouco do que se passa, de um modo simples mas também tecnicamente explícito, Eduardo Molon.

O conceito de qi (energia) no taijiquan


A escrita chinesa é composta de pictogramas que expressam idéias, chamados ideogramas. Isto evidencia uma forma de pensar e de transmitir estas idéias diversa da forma como estamos habituados no Ocidente, o que cria dificuldades imensas de tradução da língua chinesa, seja em textos ou na transmissão oral. A situação fica ainda mais complexa quando as idéias que se está a tentar transmitir pertencem a um campo altamente técnico, e esta complexidade é multiplicada no caso das artes marcias chinesas pois os textos escritos são normalmente muito antigos. Estes textos, além de utilizarem ideogramas que já foram transformados pelo tempo, eram escritos de forma que o seu conteúdo não fosse imediatamente acessível a um leigo, e mais ainda: de forma que, mesmo para um estudante, o significado do texto fosse sendo revelado em camadas cada vez mais profundas de conhecimento.
Um dos conceitos pior compreendidos no taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) é o conceito de qi (pronunciado “tchi”). O ideograma para qi foi traduzido de várias formas, mas a que mais se popularizou, em parte devido ao pioneirismo, foi a de “energia”. Esta tradução tem sido usada em Medicina Tradicional Chinesa e em taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) pelo mundo a fora, e contribui para a confusão a respeito do significado de qi, que tem significados diferentes dependendo do contexto em que é utilizado. Mas o nosso objectivo aqui não é discutir qual a melhor tradução em determinado contexto, e nem mesmo especular sobre a existência ou não de uma energia ou de um sopro vital que seja importante para a prática do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan). Pelo contrário: tais especulações tendem a alimentar a mistificação em torno desta arte, e que é tão contraproducente para a sua aprendizagem concreta. Demonstraremos através de dois exemplos familiares ao pensamento ocidental que a mistificação é desnecessária, e vamos propor uma abordagem prática do conceito de qi.


Aquilo que se chama de qi em taijiquan (taichichuan, tai chi chuan), e que é habitualmente traduzido por energia, não tem absolutamente nada a ver com o que significa energia em termos físicos( da Física). Além disso não é possível medir ou detectar o qi, o que inevitavelmente levanta a questão sobre a sua existência _ então chegamos ao ponto central: não é de nenhuma forma necessário acreditar na existência real do qi para praticar taijiquan (taichichuan, tai chi chuan), para desenvolver força interna e nem para alcançar níveis mais avançados no taijiquan (taichichuan, tai chi chuan).Qi, no contexto da prática do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) é, num nível mais superficial, simplesmente uma sensação ou um conjunto de sensações produzidas pelo exercício executado seguindo a técnica correcta. O facto de tais sensações existirem e de serem de alguma forma úteis à aprendizagem não quer dizer que exista qi _ o conceito de qi pode ser tratado como sendo uma construção teórica apenas. Esclarecemos com um exemplo prático: quando dizemos “está frio” e “está calor”, isto não quer dizer que exista uma grandeza física chamada frio e uma outra chamada calor. Apenas para começar, podemos dizer que frio é uma sensação causada pela ausência de calor. Prosseguimos lembrando que calor também é apenas uma sensação, que na história da ciência já se chegou a acreditar na existência de uma substância chamada calórico, e que hoje sabemos que uma temperatura elevada é uma das muitas formas de verificar energia (no sentido de Física) num sistema. No entanto, falar em calor e frio serve-nos do ponto de vista prático, e o mesmo se aplica ao falar em qi.

Num estádio mais avançado de treino do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) o conceito de qi adquire uma importância maior. A sua utilidade passa a ser a de uma interface entre a mente e o corpo, quando a habilidade do praticante atinge um determinado ponto.Usando novamente um exemplo científico: crê-se actualmente que é possível em princípio descrever todas as reacções químicas utilizando-se o aparato teórico apenas da Física. Mas por que dizemos em princípio? Porque mesmo as reacções químicas mais simples são tão complicadas de serem descritas que, embora o corpo teórico oferecido pela Física seja suficiente para descrevê-las, o problema prático de fazê-lo é intratável. De uma forma parecida poderíamos adoptar a hipótese de que todos os movimentos do corpo são em princípio passíveis de serem descritos mecanicamente, em termos dos músculos, tendões e articulações envolvidos. Mas mesmo que isso seja possível, na prática é impossível aprender a realizar estes movimentos com o seu próprio corpo, especialmente num grau de precisão e harmonia como no taijiquan (taichichuan, tai chi chuan), sem usar o conceito do qi.
Assim podemos supor que o qi exista ou que não exista, mas isto é irrelevante para a prática. Quem assim preferir pode até mesmo por simplicidade supor que o qi não exista num sentido concreto. O que é relevante é que para aprender taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) o praticante deve, durante o treino dos movimentos, tratar o qi como se este tivesse existência real. Isto é necessário para que ele possa atingir a integração dos movimentos do corpo em um só movimento, e aumentar indefinidamente o refinamento deste movimento único. Não pretendemos nem desejamos passar a impressão de que taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) é algo científico, longe disso. Mas queremos deixar claro que esoterismos são supérfluos e que todo o conhecimento contido no taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) é empírico e vem de uma herança milenar de cultura corporal que antecede a sua criação, e que foi enriquecida por séculos de treino dedicado de várias gerações da família Chen.

Taijiquan, um sistema completo

O taijiquan (taichichuan, tai chi chuan), como arte marcial, é um sistema completo de treino. Isto significa que possui um conteúdo auto-suficiente, que inclui (mas não se limita a) um método para gerar força mecânica, treinos específicos para aplicação, treinos com armas tradicionais, uma didáctica sistematizada, uma filosofia e uma teoria próprias. Desta forma o tajiquan dispensa totalmente quaisquer treinos complementares, chineses ou não.

Método para gerar força
O taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) está todo estruturado sobre o conceito de força interna, que significa usar a musculatura interna do corpo e torná-la forte. A expressão força interna é frequentemente mal compreendida e interpretada como se fizesse referência a algo místico ou etéreo, mas na verdade se o treino for correcto, os seus músculos e tendões profundos, que são pouco atingidos com exercícios normais, serão exercitados e fortalecidos, você será treinado a usá-los naturalmente para realizar os movimentos. Existe um método simples, objectivo e eficaz para conseguir gerar força interna, este método consiste em relaxar tanto quanto possível mantendo a postura correcta do corpo, que é ajustada milimetricamente pelo professor; o efeito deste treino é modificar a forma como o seu corpo se sustenta e se move. Por isto não apenas não é necessário fazer qualquer exercício estranho ao sistema para aumentar a sua força física, como é prejudicial à aprendizagem, pois você faria estes exercícios usando o seu modo habitual de exercer força, justamente o modo que está a tentar abandonar em troca de um modo novo. Da mesma forma é contraproducente praticar formas de outros sistemas marciais, pois o modo de empregar o corpo para gerar força é diferente. Mesmo artes também internas como xingyiquan (hsing i chuan) e baguazhang (pa kua chang) empregam métodos próprios e diferentes do método do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) para conseguir gerar força interna.

Treinos para aplicação
É muito comum o praticante ficar ansioso por aprender as aplicações dos movimentos da forma, e frustrar-se com a demora em chegar a este ponto. Também é comum ver aplicações de movimentos serem ensinadas sem nenhum proveito. Não é possível insistir excessivamente em que o ponto central do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) é a geração de força interna. As aplicações práticas dos movimentos são tão comuns quanto possível, e existem dúzias de livros disponíveis sobre taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) ensinando chaves e golpes diversos, todos eles inúteis se o praticante não souber gerar força. Por isto é igualmente inútil tentar incorporar treinos marciais estranhos ao sistema, pois o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) só é eficaz na medida em que a postura correcta e a posição relativa do corpo permitem a geração da força interna que é o que torna uma aplicação eficaz.

Treinos com armas tradicionais

Desde Chen Wangting, e com o passar das gerações da família Chen, foram sendo incorporadas e aperfeiçoadas ao sistema formas com armas como espada, sabre, bastão longo, lança e várias outras. As formas com armas que hoje compõem o sistema do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) são muitas, no entanto cada uma tem o seu lugar específico no treino do corpo, e absolutamente todas elas se conformam ao princípio de movimento do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan). Podemos citar, a título de exemplo: a forma com sabre costuma ser ensinada cedo no currículo de treino para melhorar a habilidade dos passos do praticante. Isto mostra porque não é apropriado praticar com armas alheias ao sistema: os movimentos da forma não foram adaptados ao modo de mover-se próprio do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan).

Treinos aeróbicos (cardiovasculares) Uma preocupação frequente do praticante de taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) é a respeito do treino aeróbico - melhor dizendo, do condicionamento cardio-vascular, uma vez que a forma tradicional parece lenta e não se atinge em geral a frequência de batimento cardíaco da faixa “aeróbica”. Esta preocupação deve-se ao desconhecimento de dois factos: primeiro, a forma lenta do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) é considerada um exercício cardiovascular de intensidade moderada, o que além de ser saudável já satisfaz as necessidades da maioria das pessoas. (Existem pesquisas a este respeito).Em segundo lugar, o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) não tem somente a forma lenta que se vê normalmente praticada nas praças e parques. O taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) criado pelos Chen possui, para ficar somente no âmbito da laojia, a forma chamada paochui, que é praticada em alta velocidade e inclui saltos e movimentos explosivos em profusão. Ocorre que a imensa maioria dos praticantes não atinge a habilidade necessária para sequer começar a aprender esta forma.

Alongamento e flexibilidade Não chega a ser prejudicial praticar alongamentos e exercícios para aumentar a flexibilidade, porém a sua utilidade é limitada. Para atingir os músculos na proporção e extensão correctas seria necessário manter a postura e os alinhamentos articulares correctos, e tentar apenas esticar-se ao máximo não chega nem perto disso. Além disso, as posturas do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) que aparentemente exigem muito alongamento, na verdade são difíceis de realizar não por este motivo, mas porque na verdade o praticante não tem força para se manter na postura correcta. O tempo será melhor empregue se for usado para praticar a forma, e a flexibilidade aumentará natural e gradualmente.

Exercícios de qigong (chi kung) Os exercícios chamados de qigong (chi kung) existem aos milhares e em grande variedade no repertório de técnicas corporais chinesas. Há exercícios de qigong (chi kung) para quase todas as finalidades que se possa imaginar, desde activar glândulas no corpo até para estimular o processo mental de meditação, passando por exercícios que visam desenvolver habilidades marciais como quebrar pedras ou tornar diversas partes do corpo resistentes a pancadas. Todos estes exercícios são dispensáveis e estranhos ao sistema do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan), e a maioria deles pode ser prejudicial ao treino, sendo alguns prejudicias até mesmo à saúde. O que o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) fez com as formas de combate de que muito herdou foi torná-las mais “suaves” externamente porém mais fortes internamente. O que o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) fez com os métodos que existiam para gerar força antes da sua criação foi torná-los mais “macios” e indirectos, e de resultado mais lento porém mais intenso. O que o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) fez com os exercícios de duna e de daoyin (tipos de qigong (chi kung)) que influenciaram a sua forma foi exactamente o mesmo. Os métodos de qigong (chi kung) directos e “duros” foram incorporados e tornados “suaves” e indirectos, porém com resultado mais forte, ainda que mais demorado. Ao praticar taijiquan (taichichuan, tai chi chuan), pratica-se naturalmente o qigong (chi kung) apropriado. Praticar qualquer exercício de qigong (chi kung) estranho ao sistema, mesmo que compatível, representa na verdade um retrocesso a métodos que o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) aprimorou e tornou desnecessários ou ultrapassados.

Meditação e concentração
Da mesma forma, não é necessário praticar qualquer tipo de exercício de meditação ou de concentração como acessório à prática do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan). Os processos de treino de concentração mental e de união da mente ao corpo _ um dos muitos motivos pelos quais o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) é procurado actualmente _ estão naturalmente integrados no sistema. Na verdade de uma forma bastante simples: para modificar a forma como o corpo se movimenta e gera força é necessária uma aplicação mental bastante grande, e a presença da mente é tanto mais necessária quanto mais se progride no treino. Desta forma a capacidade de concentração aumenta gradativamente conforme aumenta a habilidade do corpo. A força interna é gerada naturalmente pela postura correcta do corpo, e a concentração e a combinação da mente com o corpo são geradas naturalmente pela compreensão correcta do método do treino.

Didáctica moderna
Existe um nível mínimo abaixo do qual não é possível simplificar o treino do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan). Há poucas gerações o treino mais básico possível era repetir à exaustão o primeiro encadeamento do laojia. Textos de vários professores e a tradição oral falam em treinar um mínimo de dez mil vezes a forma para ter uma noção do que se trata(está em causa) no taijiquan (taichichuan, tai chi chuan). Se o praticante se dedicar a treinar dez vezes por dia a forma, o que significa em torno de 4h diárias de treino, levará 3 anos para ter uma compreensão básica da mesma. A geração actual de grandes mestres (Chen Xiaowang, Chen Zhenglei, Wang Xian e Zhu Tiancai) criou uma didáctica modernizada com o objectivo de atender à exigência do homem moderno por uma didáctica menos espartana. No entanto, não é possível simplificar a prática a ponto de, por exemplo, fazer apenas os movimentos com os braços, pois isto contraria o princípio fundamental do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan), que é de o centro do corpo mover-se e todo o resto do corpo segui-lo.

Como praticar taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) Com isto tudo esperamos ter tornado claro o seguinte: se quer aprender taijiquan (taichichuan, tai chi chuan), pratique apenas taijiquan (taichichuan, tai chi chuan). Por mais óbvio que pareça esta afirmação, ela é necessária, pois não parece que um treino lento e suave como o do primeiro encadeamento da laojia o vá tornar forte e rápido. Mas se estiver sob orientação adequada, vai tornar-se claro muito cedo que o treino parece suave porém é fisicamente pesado, e que qualquer exercício estranho ao sistema é um desperdício de tempo que poderia ser investido no treino do que é o seu objectivo final: desenvolver força interna. " (adapt.)

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Espero que se tenha sentido esclarecido/a face a esta temática, conforme enunciada acima, e, sobretudo, relativamente a certa mistificação que ainda persiste, mesmo junto de alguns que a iniciaram_ou, por outro lado, não o fazem, por não saberem ao certo o que está em causa. Quanto a mim: não há como experimentar, fazer, não esperar nada a não ser saber que está a tratar de si...mas deixar-se surpreender.


É tudo a ganhar!