31/07/2008

CHANSIJIN _ A FORÇA EM ESPIRAL







A Força Em Espiral



Cá me encontro de novo, continuando a tentar ser semente de uma prática que é, a meus olhos, uma actividade de eleição entre muitas _ só para mostrar a minha boa vontade em considerar esta arte não só como passível de múltiplos tipos de abordagem mas, também e sobretudo, de ser tratada e praticada sem complicações e/ou mistificações que por vezes afastam alguns curiosos, impedindo-os de virem a usufruir de todas as mais-valias que ela aporta.
Infelizmente, por razões que não são para aqui chamadas, não me considero competente para fazer uma apresentação directa sem suscitar possíveis dúvidas acerca da qualidade em que o faria, para além de fiel adepta e executante.
De novo vou, por conseguinte, fazer recurso a uma fonte que seleccionei entre várias a que tive acesso, por me parecer mais próxima da compreensão e experiência que pude vivenciar. Assim, de notas publicadas em 12/09/05, por Eduardo Molon, e com leves adaptações, segue-se o seguinte excerto:


Chansijin - a força em espiral



Todo o sistema marcial, além de outros componentes, inclui um método para gerar força mecânica. Este método pode ser básico, como, por exemplo, utilizar apenas a força muscular do membro directamente envolvido num movimento: a força do braço para desferir um soco, ou a força de uma perna para desferir um pontapé. Pode ser um pouco mais elaborado, como no caso de se usar a inércia do corpo para aumentar a força de um golpe: por exemplo, girar o corpo em torno do eixo vertical enquanto se desfere um soco, para aumentar a velocidade do punho, e consequentemente o momentum do mesmo, tornando o seu impacto mais eficiente. O objectivo de um método para aumentar a força do corpo além daquela imediatamente disponível à primeira vista é óbvio: contra um inimigo minimamente treinado apenas técnicas de alavanca serão insuficientes, é necessário que a força que opera a alavanca seja suficientemente grande para tornar a técnica aplicada irresistível, ou o impacto de uma pancada devastador.
As artes marciais na China e no Japão alcançaram um nível de grande profundidade no que respeita ao método de gerar força. Tanto as artes marciais ditas externas quanto as ditas internas desenvolveram métodos altamente detalhados e precisos de mover toda a força disponível no corpo e concentrá-la de modo focalizado no ponto de aplicação, seja numa chave, seja num impacto. A elaboração cada vez mais refinada destes métodos pode ter sido um factor contribuinte para a composição de uma das facetas do conceito de qi. Os exercícios disponíveis podem ser chamados, às vezes de modo equivalente, qigong (chi kung) ou neigong, termos que significam "trabalho sobre o qi" ou "trabalho interno". No taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) pode dizer-se que dois exercícios compõem o qigong (chi kung) básico: zhanzhuang (zhan zhuang) e chansijing.

Desenrolar o fio de seda
Chansijin significa literalmente "desenrolar o fio de seda". Chansijin é na verdade o princípio de movimento que deve estar constantemente presente durante a execução da laojia, e de qualquer outra forma ou movimento do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan). Antigamente não existia um treino em separado de chansijing; o princípio era praticado durante a repetição das formas, e aprendido naturalmente. Ocorre que no passado o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) era ensinado somente dentro do meio familiar e a dedicação exigida era de tempo integral_ o número de repetições da laojia que um aluno realizava chegava a 30 por dia. Mas na actualidade o taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) passou a ser ensinado a amadores, e a dedicação menor destes tornou muito difícil que aprendessem o princípio de movimento durante as formas, devido à grande complexidade do movimento do corpo durante as mesmas. Os Grão-Mestres da actual geração resolveram então oferecer uma didáctica mais apelativa, e criaram, a partir dos movimentos das formas, exercícios isolados com o objectivo de ensinar o chansijing de maneira mais directa.
O movimento do centro do corpo pode ser didacticamente explicado como se fosse realizado em torno de dois eixos imaginários distintos: um movimento em torno do eixo que passa pelo dantian (logo abaixo do umbigo), em direcção à frente e paralelo ao chão, e outro em torno do eixo que passa de um lado ao outro dos quadris, também paralelo ao chão. Esta divisão, deve-se frisar, é didáctica e não deve ser tomada rigidamente pelo aluno, pois durante as formas o movimento do corpo é realizado, na maioria das vezes, em torno dos dois eixos simultaneamente. Além disso, o movimento em torno do segundo eixo supracitado requer um grau de evolução bastante avançado para o aluno médio. O chansijing é um exercício repetitivo, que é praticado exaustivamente de modo a treinar o corpo em duas habilidades: primeiro, em manter a força interna durante o movimento e não apenas durante o zhanzhuang (zhan zhuang); segundo, em desenvolver a força em espiral. Existem vários tipos de exercícios compondo o chansijing, escolhidos para treinar a espiral em torno dos dois eixos separadamente e também simultaneamente. Estas são algumas fotografias do Grão-Mestre Chen Xiaowang demonstrando o primeiro tipo de chansijing:

O nome chansijing é uma referência ao acto de desenrolar o fio de seda de um casulo de bicho-da-seda, e é usado porque durante este exercício é necessário manter um grau exacto de força e relaxamento, pois se for usado um excesso de força o qi emaranha-se, mas se for usado excesso de relaxamento parte-se a conexão. Mas o que significa fio de seda, na prática do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan)?
Força em espiral quer dizer que a força que é desenvolvida pelo corpo durante a prática do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan) enrosca-se em torno dos membros, e não é simplesmente a extensão ou flexão de uma articulação com alguns músculos agindo para mover uma alavanca, mesmo quando o movimento resultante, visto por um observador externo, parece rectilíneo. Um soco, desta forma, não se limita à extensão do braço e antebraço causada pela contracção do tríceps, e nem é suficiente incluir na análise o movimento do tronco em torno do eixo vertical ­_estas são simplificações que nem arranham a superfície do que é a força em espiral. A espiral começa dentro do centro do corpo, e o praticante com alguma experiência pode sentir que o movimento do braço em torno do seu próprio eixo é causado, comandado, e está mecanicamente ligado ao movimento do centro do corpo, que se reflecte no movimento da musculatura da região em torno das articulações coxo-femurais, se espalha pela região lombar e pelo abdómen, pela região dorsal e peito, e finalmente se expressa pelo braço e punho. Ao mesmo tempo, a mesma espiral propaga-se pelos dois lados do corpo e por ambas as pernas - quando uma parte do corpo se move, todo o corpo se move em consonância, num movimento único. A espiral deste exemplo, por sinal, não é em torno do eixo vertical, embora o tronco termine girando em torno de um eixo vertical _ a espiral de força neste caso é, a grosso modo e na região do centro do corpo, em torno do eixo que passa pelo dantian paralelamente ao chão. O tronco está girando em torno da vertical, se olhado do exterior, mas a musculatura interna ao corpo está girando em torno de si mesma, de acordo com a direcção de cada feixe. Desta forma é fácil verificar que a espiral a que nos referimos não é o movimento circular visível externamente, mas sim o movimento muito pequeno dos músculos dentro do corpo.
Aquilo a que se chama fio de seda é o que liga mecanicamente as espirais dos inúmeros feixes de músculos do corpo, e que faz com que todas estas espirais sejam um só movimento, uma só espiral. Alguns pensam que desenrolar o fio de seda refere-se à aparência circular do movimento das mãos durante os exercícios, mas isto é um erro. Fio de seda refere-se às conexões dentro do corpo que são treinadas pelos exercícios. A rigor estas conexões são chamadas harmonias externas, e fazem parte das seis harmonias. Elas são ditas externas porque envolvem a parte material e visível do corpo, e são: as mãos estão em conexão com os pés, os cotovelos estão em conexão com os joelhos, e os ombros estão em conexão com os quadris. O fio de seda é o que torna estas conexões reais e concretas, e não apenas fruto da imaginação. O movimento dos ombros e quadris, uma vez que estas partes sejam unidas pelo fio de seda, passa a ser mecanicamente ligado (o mesmo ocorre com as mãos e os pés, os cotovelos e os joelhos). O fio de seda é esta ligação mecânica. Uma vez conectado o fio de seda, ele é muito frágil, e qualquer pequena perturbação pode quebrá-lo: no início basta uma mínima distracção da concentração do aluno. Com o passar dos anos de treino, o fio de seda se fortalece, e passa a ser uma característica natural da postura do aluno, mas ainda é possível quebrar a conexão com um empurrão, por exemplo. Mas o potencial de fortalecimento do corpo conectado pelos fios de seda é muito superior ao do corpo que sabe usar apenas o membro directamente envolvido em um movimento. Conforme o aluno progride o fio de seda fica cada vez mais forte, até que nem mesmo um oponente forte pode parti-lo. É neste ponto que começa a ser possível aplicar as técnicas do taijiquan (taichichuan, tai chi chuan). (...) "



BOM PROVEITO!