13/04/2008

ARTES MARCIAIS - INTERNAS?

Há inúmeras formas de abordagem na aproximação a uma definição ou até delimitação no que respeita ao conceito de "Artes Marciais". Existe uma editora que se dedica à edição de livros cujos autores quase normativamente aderem à vertente mais próxima à abordagem filosófica e/ou espiritual das mesmas, sem menosprezar a vivência e disciplina da prática. Eis um exemplo:




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" EDIÇÕES NOVA ACRÓPOLE



Fundamentos Históricos e Filosóficos das Artes Marciais


Francisco A. Taboada

INTRODUÇÃO


O que me impulsionou a escrever estas páginas é o profundo pesar que me causa comprovar a ausência de uma doutrina que de alguma maneira mostre essa mística tão esquecida nas Artes Marciais.
Hoje em dia o intelecto tem substituído a vivência, quando na realidade o primeiro deveria ter-se posto lado a lado com a acção para se aspirar a poder alcançar essa "Verdade Suprema", à qual somente se chega quando se vive em plenitude.
As Artes Marciais são uma necessidade de expressão que se manifesta através de uma forma; portanto, o homem, somente com a atitude que demonstre ante esta forma, fará com que a mesma tenha validade ou não.
Vivemos em um século contaminado de materialismo e, por tal razão, o extremo tecnicismo invadiu o homem com um sem fim de brinquedos electrônicos que o tiraram de si mesmo, o projectaram para o exterior e o converteram no principal protagonista desta sociedade de consumo. Mas não é meu interesse analisar o sistema vigente, que retirou ao homem essa necessidade introspectiva de se conhecer a si mesmo, senão mostrar que, de alguma maneira, restam esquemas e, se de certo modo se sabe olhar, se chegará a comprovar que não é mais do que a esquematização de que necessita a natureza para expressar a si mesma.
Hoje escrevo o que através das práticas fui vivenciando. Talvez amanhã chegue a pensar, não de modo diferente, mas sim com mais profundidade. Sei que estes conceitos podem ser úteis a todos aqueles que se encontram na mesma busca e que têm intuído que as Artes Marciais não são uma casca vazia reduzida a uma prática física como finalidade, mas que, pelo contrário, se podem tomar como caminho filosófico que nos conduza à verdade transcendente. O segredo para achar nelas uma finalidade ou um meio está na intencionalidade do indivíduo.

Nas páginas seguintes, tratarei de deixar bem estabelecida a essência que definitivamente faz a diferença entre uma Arte Marcial e um desporto. De modo algum quero dizer que um é melhor que o outro, senão que são diferentes em sua natureza, já que o desporto tem como finalidade uma harmonia físico-mental para levar uma vida sã e ordenada, enquanto a Arte Marcial não somente dá harmonia ao ser físico e mental, mas também vincula esta harmonia a uma intenção místico-espiritual que projecta o Homem a uma realização interior.
Arte Marcial não é violência como muitos crêem, mas uma bela forma, a que nos pode servir para acelerar esse processo espiritual que nos aproxima mais de Deus e do próximo.
A minha intenção é contribuir, ainda que não seja mais que em uma ínfima parte, para restaurar a mística perdida nestas nobres Artes Guerreiras; e uma das maneiras de as restaurar será despertando em todos aqueles que a pratiquem esse espírito adormecido, que é tão grande e nobre como o espírito que habitou em um Samurai ou em um Espartano.

Este não é o trabalho de um, mas do esforço acumulado de todos aqueles que se acreditam capazes de levar adiante os grandes trabalhos para plasmar Ideais Fortes.
É muito o que hoje há por realizar, mas o importante não é deixar rolar a bola, mas mantê-la rolando. Somente assim, forjando uma intencionalidade ao espiritual, não deixaremos lugar a nenhum elemento nocivo, que prejudique essa tão maravilhosa expressão, como são as Artes consagradas ao Deus Marte.
Se bem seja certo que o homem não pode dobrar o curso da história para melhorar as coisas, pode sim, contemplar, ao fim de seus dias, tudo aquilo que de positivo fez por seus irmãos; então não somente verá sua missão cumprida, mas irá deixando o mundo um pouco melhor em relação a como o encontrou.
Ao olhar para frente, consciencializamo-nos de que a tarefa adquire aspecto de gigantes, mas D. Quixote ensinou-nos que, quando se investe contra eles, se transformam em simples moínhos de vento.
Todos os seres, em maior ou menor dimensão, têm sonhos e ilusões; pois bem, esses sonhos estão à espera de serem materializados. Basta que nos ponhamos a trabalhar com a meta colocada no futuro e, quando cada centro desportivo, instituto ou academia, onde se dão as instruções de Artes Marciais se transformarem em verdadeiros templos, e não, como no presente, que se lhes disfarça com o fim de incrementar as quotas de mensalidades, então a nossa missão estará cumprida. "
Adiante..." (...)